Um recado pra ti, Bella Maia.

Passei dias pensando no que te escrever, Bella. Li, por acaso, a nota no G1 de quando você foi internada com cetoacidose e teu depoimento me fez refletir e lembrar de sentimentos do passado: não nos conhecemos, mas temos algo em comum – o diagnóstico de diabetes.

“Estou aprendendo a lidar com a doença, num processo de aceitação. Fui diagnosticada há três anos. Sou uma pessoa muito livre e essa doença me aprisiona, veio para me colocar limites. Tenho aprendido com ela, que é muito maior que eu. Tenho que acolher essa doença, mas sinto que minha vontade de viver é maior que meu corpo”, conta. Por causa da doença, Bella Maia precisa administrar insulina três vezes por dia.

Fui diagnosticada com 14 anos e também passei por todas as fases do luto (primeiro a negação, depois a raiva. Quando isso passa, chega a fase da negociação, depressão e a tão esperada – e necessária – aceitação). Bella, o diabetes não te aprisiona, não te coloca limites. Nunca, em hipótese alguma, acredite que a doença é maior que você! Como disse Sêneca, faz parte da cura o desejo de ser curado: que tua vontade de viver – e viver bem, com saúde, te mostrem que o diabetes (eu sei, é um saco!) está longe de limitar teus sonhos.

Novembro é o mês mundial do Diabetes e eu, de coração, espero que você esteja bem: espero que encontre força para superar o diagnóstico, encontre motivação para o cuidado diário e conte com o apoio das pessoas ao teu redor. Só fala de doença silenciosa quem nunca prestou atenção no barulho constante que o diabetes faz: não tenha vergonha de pedir ajuda!

Espero que essa mensagem chegue até você e que você acredite em mim: o diabetes é só uma parte de ti. Aos poucos (e sempre!), estou aprendendo a me cuidar, a pensar em mim, a me priorizar. Aos poucos também percebo que dá pra balancear, que encontrar o meio termo é viável. Espero que você sinta o mesmo! Não é preciso aceitar a morte da espontaneidade.

Te cuida, Bella. E se eu puder ajudar em algo, conte comigo.

 

POST ATUALIZADO:

Obrigada pela força, gente. A Bella leu o post e respondeu! Saúde! S2

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Perdi a espontaneidade…

Não me lembro exatamente quando, mas ela se foi. Quando notei, não restavam nem rastros: ao assumir a responsabilidade do tratamento do diabetes e na vontade de um controle melhor, perdi minha espontaneidade. De um dia para o outro me vi segurando impulsos, contendo emoções, me negando prazeres. De uma hora para outra, não colocava nada na boca sem contar carboidratos, não dava um passo sem olhar o gráfico do sensor, não embarcava em uma aventura sem ter planejado tudo, nos mínimos detalhes.

Eu queria (precisava!) de um controle melhor e a falta de rotina da espontaneidade ia na contramão da estabilidade glicêmica. Eu mudei: coisas que antes fazia sem pensar, passaram a demandar um tempinho extra. Não aceito convites para viagens sem rumo/estrutura (onde vou comprar insulina em caso de necessidade?); não me jogo na piscina de roupa (preciso desconectar a bomba antes!); festas regadas a álcool (não saio de casa sem antes colocar um lanche na bolsa); … Aqueles segundos que antecedem a decisão agora fazem parte de mim. Faço questão de ter aquele pingo de noção, aquela pontinha do pé no chão. Por mim, pela minha saúde.

Aos poucos (e sempre!), estou aprendendo a me cuidar, a pensar em mim, a me priorizar. Aos poucos também percebo que dá pra balancear, que encontrar o meio termo é viável. Não aceitarei, então, a morte da espontaneidade. Deixarei meu peito aberto para quando ela quiser entrar: nos encontraremos dançando às 3 da manhã, arrumando a mala para viagem de última hora, na conversa jogada fora na mesa do boteco durante a semana, na sobremesa antes do jantar. Daremos as mãos e andaremos juntas, com cautela, ao lado do equilíbrio.

Que não nos falte vontade para fazer tudo, ou, ao menos, fazer o que der, mas fazer com vontade. E com saúde. Sempre!

Fui ser feliz!

Monitorização Contínua de Glicose

O sistema de monitorização contínua de glicose (CGM) consiste em um pequeno sensor externo, descartável, que é aplicado na pele e conectado em um transmissor. Isso significa que já existe tecnologia capaz de oferecer uma leitura de glicose a cada 5 minutos para o usuário: ou seja, 288 leituras por dia.
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“Nossa! Que incrível! Significa que nunca mais vou precisar furar o dedo novamente?” Não. Ainda não: diferente da glicemia capilar, o sensor mede a glicose no fluído intersticial (o líquido entre as células). Ele deve ser calibrado com as pontas de dedo em intervalos regulares durante a sua utilização.

“Ahm… Mas então, para que serve?” Imagine que a monitorização contínua pode orientar sobre as oscilações da glicose, o que facilita a atuação imediata e pode evitar hipos e hipers. O gráfico mostra como o exercício, a alimentação e o tratamento estão influenciando no controle glicêmico; ajuda a detectar tendências e pode emitir alertas se a glicose estiver subindo ou descendo demais.

 

Agora você já sabe o que significam aqueles “apitos” que escuta quando está comigo. É meu “anjo da guarda” mandando sinais de alerta! 😉

Se tiver alguma dúvida, poste nos comentários!

Apaixone-se por alguém que cuide de você na instabilidade glicêmica

“A gente é mesmo muito bobo. Insistimos em inventar um ridículo rol de qualidades infinitas que almejamos na pessoa que escolhemos para compartilhar a vida. Qualidades essas que, na maioria das vezes, nem nós mesmos temos: cor do cabelo, posição política, séries favoritas, bairro onde mora, largura do ombro, filmes que já viu, livros que já leu, circunferência do quadril, tonalidade dos dentes. Blá blá blá.

Uma lista boba que sabemos que provavelmente nunca será concretizada. Mas, apesar de sabermos que nosso coração debocha dessas exigências, acho que elas não são de todo mal. E, desde que bem selecionadas, podem, de fato, aumentar a probabilidade de um relacionamento feliz. Além dos requisitos óbvios: não beliscar crianças/não chutar velhinhos/não matar pandas/não votar no bolsonaro/não tomar fanta uva, acho válido estabelecer uma ou outra característica como referencial.

E para mim, há uma característica realmente essencial: essa pessoa precisa estar disposta a cuidar de você quando você tiver uma hipoglicemia, ou uma hiper. Sei que não é a situação ideal para pensar num início de relacionamento, mas a longo prazo, isso pode sintetizar uma incrível capacidade de cuidar, de tolerar, de encarar, de amar. E eu não estou falando de hiperzinha, 200, enjoadinha. Tô falando de hiperglicemia das boas: vômito, enjoo, HI no medidor, tontura, dores abdominais, irritabilidade. Sério mesmo.

Encontre alguém que olhe para você e perceba que há algo de errado antes de você correr para o banheiro. Alguém que reconheça que aquele seu silêncio não é só um ar pensativo. Alguém que perceba que você não está na cama de madrugada e vá conferir o que está havendo. Encontre alguém que saiba diferenciar hipoglicemia de hiperglicemia, e que saiba o tratamento adequado para cada momento. Que grite uns “tudo bem aí?!” quando você demorar muito na cozinha. Alguém te leve um copo de água gelada depois de te ouvir vomitar e que tente sorrir para te mostrar que está tudo bem. Alguém que saiba te aplicar insulina ou glucagon se necessário.

Encontre alguém que, se não souber o que fazer, dê um Google, ligue para a mãe, procure soluções. Alguém que volte da farmácia e do supermercado com um monte de tralha. Alguém que compre chocolate, bolacha e sorvete para contornar a hipo: por mais que seja um baita erro, um erro bruto, mas que tenha tido a melhor das intenções.

Encontre alguém que deixe o telefone do seu lado para emergências. Alguém que não queira te deixar sozinho nesse estado, mas que se tiver que sair, fique com a cabeça em você. Alguém que cancele os compromissos do fim de semana, se acomode ao seu lado no sofá, coloque um filme e faça carinhos quando você ainda estiver enjoada.

Não procure alguém que te leve flores toda semana, que te dê presentes caros, que tenha um monte de diplomas pendurados na parede ou um cabelo incrível para transmitir para seus filhos. Se vier com isso é bônus, mas este não é o foco. Busque alguém que esteja lá por você. Alguém que olhe para você com carinho, ainda que você esteja cadavérico. E que mesmo no contexto mais desagradável, te arranque um sorriso cansado e te dê a certeza de que tudo vai ficar bem. Alguém que queira te abraçar mesmo quando você estiver inabraçável e que te dê a segurança de que o amor é muito maior do que a instabilidade glicêmica. O resto a gente ajeita.”

Carol & Gabriel

Ruth Manus, novamente, serviu de inspiração. Adaptei o texto “Apaixone-se por alguém que cuide de você numa virose” para agradecer teu carinho e cuidado de sempre, Gabriel!

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